Os profetas armados
No século XVI, quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, a Itália não era um país unificado. Ao invés disso, era uma coleção de cidades-estado, cada uma com sua própria corte e governante, e cada um deles buscando o controle de seus vizinhos. Nesse contexto nasce um manual que captura a essência do jogo político: seus reis, cortesões, súditos, exércitos, auras imaginárias e ao mesmo tempo reais de força; governantes e governados; e também seus profetas políticos, sempre dispostos a ceifar o poder e refundar Estados com novas leis.
Maquiavel por Santi di Tito, nas vestes de um funcionário público florentino.
No capítulo 6 de O Príncipe, Maquiavel introduz uma noção sublime: a dos profetas armados e dos profetas desarmados. Maquiavel pede aos leitores desculpas por seus constantes exemplos provenientes da história — mas no assunto da política, ele assegura, é melhor seguir o exemplo dos homens que nos precederam. Após discutir a necessidade de se almejar à grandeza, Maquiavel coloca à frente uma sugestão objetiva: a de que os homens que conquistam domínio sobre estados através da habilidade e tática têm maior chance de sucesso do que aqueles que simplesmente tiveram sorte em atingir alguma forma de poder. Ou seja, a espinha dorsal da teoria maquiaveliana: virtù e fortuna, como virtude e sorte; opostos por vezes e complementares em outras.
Aqueles que menos contaram com a fortuna governaram melhor: Moisés em Israel, Ciro na Pérsia, Rômulo em Roma e Teseu em Atenas. Estes homens não confiaram na aleatoriedade das circunstâncias ou na sorte da fortuna. Ao invés disso, a usaram para conquistar o poder. Essa noção incrível de que podemos utilizar nossa sorte e não apenas aceitar nosso destino parece permear toda a obra do italiano. Moisés teve “sorte” em encontrar os israelitas escravizados pelo Egito. Porque eram oprimidos, foram facilmente persuadidos a seguí-lo. Ciro, por sua vez, cruzou duas vezes com a fortuna: primeiro ao encontrar os persas descontentes com o governo dos medas, e depois pelos próprios medas terem se tornado “efeminados e amolecidos por uma longa paz”. Nessas circunstâncias, Ciro pôde intervir e se tornar o novo e poderoso governante da Pérsia.
Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu enfrentaram as grandes dificuldades que esperam os todos homens que pretendem obter seus reinos; mas uma vez no comando, tiveram sucesso em mantê-los, uma tarefa também difícil. Segundo Maquiavel, esse sucesso se deve a uma característica específica: todos eram inovadores, capazes de estabelecer toda uma nova ordem das coisas — novas leis, novos governos e formas de governar. Por desejarem mudanças profundas, certamente não tinham credibilidade inicial e eram vistos como espécies de profetas, tanto no sentido metafórico quanto no sentido estrito da palavra. Eram profetas de uma nova ordem política. Mas uma vez que tiveram sucesso com seus planos e promessas, logo tomaram providências para assegurar suas conquistas. E também asseguraram a credibilidade, essa aura necessária para governar. Não basta um visionário com uma visão poderosa; é necessário que o visionário tenha a habilidade prática de produzir obediência à nova ordem. Este é o profeta armado.
Escreve Maquiavel:
“Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Por que, além do que já se disse, a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas sendo difícil firmá-los na persuasão. Convém, pois, providenciar para que quando não acreditarem mais, possa fazê-los crer à força”.
Estes homens, como Moisés, Ciro e todos os profetas armados, são uma demonstração histórica que Maquiavel apresenta como prova de uma tese mais profunda. Para Maquiavel, assim como para Pascal depois dele, poder é força. Segundo eles, também podemos dizer que poder é a aura que reveste um governante, poder é a disposição de outros a fazer algo por nós, e poder são estas cordas invisíveis que obrigam os homens a certas formas de submissão; mas acima de tudo, poder é a dimensão de um trunfo real, objetivo. Poder é a força material disponível para fazer valer uma vontade muitas vezes imaterial. Quando se refere aos profetas armados, Maquiavel não dá destaque ao termo “profeta”, mas sim ao termo “armado”. Não é à toa que ele estabelece a oposição aos que estão “desarmados”.
Moisés por Michelangelo.
Uma segunda tese pode ser derivada da mesma passagem. “Fazê-los crer à força”, escreveu Maquiavel. Em sua obra, o poder tem essa dupla natureza. Crença e força. Existe na força uma qualidade virtual, no sentido de que ela existe constantemente como uma possibilidade. Ou seja: o governante não usa da força o tempo todo. Mas a força está sempre presente em sua condição virtual, como uma projeção de algo real. São as armas do profeta. Quando se faz necessário, a força que já pairava sobre os governados se faz valer e os comanda novamente à obediência. A obediência, no entanto, é nada mais do que uma tradução da crença de que aquela força existe.
A terceira tese provém da leitura de outra passagem, quando Maquiavel deixa claro que diferencia os vários governantes religiosos: existem aqueles que fazem da religião presente um instrumento político para obter poder; e existem outros, que dentro de um projeto de poder político são capazes de fundar uma religião própria. Aos primeiros, Maquiavel reserva desprezo, certamente porque os que governam em função da religião incluem no jogo político um elemento externo, esse da crença mística, e não a crença em uma força real como faz um profeta armado. Uma das maiores contribuições de Maquiavel foi ter circunscrito a política à sua própria esfera, com regras exclusivas do jogo do poder. E nesse ethos não merece respeito um profeta desarmado que, usando a superstição e o misticismo alheios à política, desfrutasse de poder verdadeiro.
Um governante que seja capaz de fundar sua própria religião, no entanto, se trata de um profeta armado. Assim como a mudança política e a promessa de novas leis e uma nova ordem, um governante pode incluir como uma das dimensões de seu poder a fundação de uma nova religião. Este deverá, enfim, usar suas armas para garantir a obediência às suas novas crenças, assim como faria qualquer governante habilidoso.
Não é por acaso que o biógrafo de Trotsky chamou os dois primeiros volumes de sua obra sobre a vida do político russo de O Profeta Armado e O Profeta Desarmado. Isaac Deustcher escreve no primeiro volume sobre um visionário político que tinha em suas mãos os meios para produzir uma nova ordem. No segundo volume, Trotsky é apenas um político com um discurso contundente, mas roubado da força para fazer crer. O mesmo não pode ser dito de Stálin. Por fim, o profeta desarmado Trotsky se tornou uma curiosidade histórica, banido da órbita do poder por um profeta armado.
Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu. Maquiavel chega a se referir a Moisés como o interlocutor direto de Deus; ou seja, se trata também do Moisés bíblico, mitológico, e não apenas de sua contraparte histórica. Mas sobre quem Maquiavel se cala? Sobre o mais célebre profeta desarmado, mitológico ou histórico: Jesus, que não possuía tropas ou armas, mas cujos ensinamentos estabeleceram uma seita, depois uma religião, depois um império e eventualmente, em seu nome, tomaram o próprio Império Romano.
Por fim, não era o próprio Maquiavel um profeta desarmado? Ele caminhou pelas fileiras do jogo político durante anos, e ao que tudo indica em alguns momentos com certo protagonismo; ou ao menos tanto protagonismo quanto sua posição lhe permitia. Ele praticava a política que se faz à portas fechadas, de acordos político-militares sigilosos; ou seja, não ocupava o mesmo papel que um “príncipe”. Ainda assim, quando em posição política desfavorável, sua resposta foi produzir uma obra visionária, que esgarça uma ordem e estabelece de forma radical outra, como faria um profeta.
Maquiavel não tinha, no entanto, os meios para fazer sua visão política prevalecer. Gostaria ele que alguém tomasse o controle da Itália, eliminasse as contradições internas entre as cidades-estado e estabelecesse uma nova ordem. Escreveu ele, nessa possível condição de profeta desarmado, para que outros profetas, estes armados, levassem a cabo a fundação do que ele gostaria que fosse um novo Estado. Maquiavel estava desarmado, mas teve sucesso espantoso: pela lente de sua obra homens fundaram e derrubaram Estados, e em sua tese está a raiz da filosofia política de nossos dias. E ele vai além disso, pois ao delimitar para o jogo político nosso combate pelo poder, Maquiavel não fundou um mero reino, mas fundou uma nova ética. Tudo o que a força permitir é considerado jogo limpo na arena de Maquiavel — mas essa arena deve estar livre de misticismos e obscuridades. Já não basta evocar forças sobrenaturais para governar, e já não basta apenas estar certo. É preciso estar armado.


