blogossauro

Anotações sobre arte, política, cultura e tecnologia por Rubens Campana.
Jun 14
Permalink

Sócrates, a sociedade aberta e os seus inimigos

No filme As Invasões Bárbaras, de 2003, um dos personagens brinca com a seguinte teoria: “inteligência não é um traço intelectual. Ela é coletiva, nacional e intermitente”. Seu exemplo é a Florença de 1504, onde conviveram dois pintores, Leonardo da Vinci e Michelangelo; um aprendiz, Rafael; Nicolau Maquiavel era secretário da cidade. O mesmo personagem cita a Filadélfia entre 1776 e 1787: Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, George Washington, John Hamilton. Nada mal.

O que dizer então de Atenas, no ano de 416 antes de Cristo? Eurípides estréia seu Electra. Na platéia, dois rivais — Sófocles e Aristófanes. Dois amigos também prestigiaram o evento — Sócrates e Platão. A inteligência estava presente em Atenas, não há dúvida.

A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David.

Não é desconcertante então que, apenas 17 anos depois, a mesma cidade de Atenas tenha julgado Sócrates, “o mais sábio de todos os homens”, e o condenado à morte? As causas e conseqüências dessa decisão do tribunal ateniense são discutidas até hoje, e não há conclusões definitivas. Mas há grande prazer na investigação.

A primeira parada é sem dúvida A Apologia de Sócrates, de Platão. Não é à toa que o episódio é a pedra fundamental da filosofia do ocidente, e a narração de Platão marcou o imaginário humano sobre aquele dia em Atenas. Seu texto é carregado de drama. Esqueça a filosofia: neste caso é drama verdadeiro, como só existe na boa literatura e na grande dramaturgia. É impossível terminar a leitura sem tomar partido pelo condenado. Claro, pois o autor era aluno de Sócrates e idolatrava seu mestre; mas também porque ficamos diante de um homem que defendeu o conhecimento, as liberdades, a educação da virtude e o direito de cada homem de falar o que pensa. E este homem é condenado à morte por isso, falsamente acusado de trair a cidade e corromper a juventude. Sócrates é a virtude, e a antes virtuosa Atenas é transformada em uma farsa em seu julgamento, seus ignorantes acusadores perseguindo e destruindo junto com Sócrates tudo aquilo que fazia daquela cidade um lugar único.

Ora pois, nada está livre da decadência. Aquela Itália de Leonardo da Vinci e Maquiavel hoje elege Silvio Berlusconi. A Filadélfia de Franklin e Jefferson votou em George W. Bush. Atenas matou Sócrates.

Depois dessa experiência pela lente de Platão, uma segunda parada: O Julgamento de Sócrates, de I. F. Stone. Dono de uma brilhante carreira de 70 anos no jornalismo, o americano I. F. Stone tinha um currículo invejável. Foi defensor intransigente da liberdade de expressão, uniu seu estilo radical e irônico a uma tremenda habilidade para as notícias e por fim se tornou um dos mais importantes e confiáveis jornalistas de sua época editando individualmente seu próprio periódico. Quando se aposentou, já com todas as honras, perseguiu outro tema: qual era a origem da liberdade de pensamento e da liberdade de expressão? Ou talvez, qual a origem da falta dessas duas coisas?

O jornalista americano I. F. Stone.

Para responder, I. F. Stone sabia que precisaria voltar para aquele episódio fundamental não apenas para a filosofia, mas também para as liberdades: o julgamento de Sócrates em Atenas. Estudou 10 anos de história da Grécia antiga, aprendeu grego arcaico e se aprofundou no tema. Seu livro é um balde de água fria em quem estava apaixonado por Sócrates:

“Com base apenas nos textos de Platão, podemos ser levados à conclusão de que Sócrates entrou em conflito com seus concidadãos por exortá-los a praticar a virtude, uma atividade que sempre gera antipatias. Mas, se colocarmos ao lado da Apologia elementos que permitam uma visão mais ampla do problema, veremos que o conflito entre Sócrates e sua cidade natal teve início porque havia divergências profundas entre ele a maioria dos atenienses de sua época.”

“A primeira e mais fundamental dessas discordâncias dizia respeito à natureza da comunidade humana. Seria ela, como afirmavam os gregos, a pólis — cidade livre? Ou seria como disse Sócrates tantas vezes, um rebanho?”

A investigação de Stone coloca o julgamento de Sócrates em seu contexto. Atenas era uma cidade autogovernada, os cidadãos atenienses faziam suas próprias escolhas e existia rotatividade entre os governantes. Uma democracia. Com escravos, claro, mas ainda assim uma experiência incrível de democracia. Sócrates não era um homem de virtude que foi punido por mostrar aos outros homens que eles eram menos virtuosos. Talvez tenha sido até mesmo o contrário — Sócrates tirava proveitos das liberdades atenienses, mas usava o clima aberto da cidade para caçoar de todos e ridicularizar essas mesmas liberdades. Afinal, dizia ele, como poderia o rebanho comandar o próprio rebanho? A democracia era ridícula.

Enquanto os atenienses tinham orgulho de se autogovernarem, Sócrates fazia elogios à inimiga Esparta, governada por reis. Mas se fosse apenas isso, não haveria problema. Em um lugar onde existe liberdade de pensamento e liberdade de expressão, nunca um homem poderia ser condenado à morte apenas por dizer que essas liberdades são estúpidas e que os governantes que zelam por elas são igualmente estúpidos. Mas Sócrates foi muito além: um de seus alunos chegou a dar um golpe em Atenas, derrubando a democracia e instaurando um governo autoritário que teve vida breve. Sócrates defendia que a cidade ideal seria governada por um rei com poderes totais, mas este rei deveria ser um sábio, o rei-filósofo. A influência das idéias autoritárias de Sócrates em Atenas não era pouca, mostra I. F. Stone. Certamente estas contradições tiveram um peso em seu julgamento muito maior do que sua suposta defesa da virtude.

O texto de O Julgamento de Sócrates também é saboroso. Sua leitura é divertidíssima, pois agora não estamos diante daquele homem que defende a virtude como nos representava Platão, mas sim diante de uma figura contraditória, bizarra, radical; Sócrates dizia defender o melhor lado de Atenas, mas nunca fez nada pela cidade que não fosse atentar contra ela; sua visão política era uma provocação permanente no coração de uma cidade-estado livre. Ele era um zumbido terrível nos ouvidos e nas mentes de todos.

O busto de Platão.

Há uma terceira parada, fora de ordem cronológica: o primeiro volume de A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de Karl Popper. Em seus dois volumes Popper faz a defesa da democracia liberal e do que chamou de “a sociedade aberta”, a partir da crítica de Platão, no primeiro livro, e depois Hegel e Marx, no segundo. Sir Karl Popper ainda se tornaria um dos grandes pensadores de seu tempo, com contribuições profundas para a filosofia da ciência, e sua visão política crítica de qualquer autoritarismo o acompanhou a vida toda.

Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de 1945, Popper produz um ataque pouco ortodoxo à Platão, mas segundo Bertrand Russell, “inteiramente justificado”. Uma das discussões mais antigas da filosofia é o problema socrático, que estabelece a quase impossibilidade de diferenciar Platão de Sócrates. O primeiro é a fonte mais importante para qualquer referência sobre o segundo. Mais do que isso, é muito difícil dizer quando o próprio Platão mostra Sócrates como um personagem histórico, e assim relata suas palavras, e quando o utiliza como um personagem literário para avançar teses próprias. Mas Popper divorcia as idéias de Platão das de Sócrates de uma forma muito corajosa, afirmando que o aluno nunca expressou em sua obra as vertentes democráticas de seu professor. Ou seja, Popper acusa Platão de trair seu mestre ao falsificar sua teoria política, representando um Sócrates totalitário.

Atenas é sem dúvida o berço da sociedade aberta e democrática que Karl Popper defende. Mas Platão talvez tivesse até mesmo ambições de se tornar ele próprio o rei-filósofo que o Sócrates de sua autoria quer ver como governante supremo. Diria Platão: por que o rebanho deveria ser governado pelo próprio rebanho, se homens mais sábios estão à disposição de Atenas? Popper discorda, e acredita que Sócrates discordava também.

É inevitável se entusiasmar com o Sócrates platônico de A Apologia de Sócrates, que se defende dos acusadores de maneira tão elegante, radical, corajosa. Depois, é possível até se desiludir com o mesmo homem em O Julgamento de Sócrates, mas na verdade é mais provável se apaixonar por ele de uma maneira completamente nova. Com A Sociedade Aberta e Seus Inimigos passamos a desconfiar de Platão, provável fundador do arquétipo de autoritarismo que o século XX viu de perto como nenhum outro. Percorrer o caminho destes livros é uma aventura prazeirosa, seja pelo drama da Apologia, a ironia intelectual de Stone ou o poder analítico de Popper; mas também por um outro prazer, que é o de amar e odiar Platão e seu mestre. Seja como for, fica difícil discordar do político e historiador inglês Thomas Babington Macauley, que escreveu: “Quanto mais eu leio sobre Sócrates, menos questiono por que lhe deram veneno”.